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A tensão entre o bloco anglo-saxónico e a Rússia, e a procura da Turquia por equilíbrio

Apesar da tensão entre a Rússia e os países ocidentais, por causa do caso Skripal, nos fazer lembrar o período da “guerra fria”, não se deve falar de guerra fria na atual conjuntura mundial. A análise de Can Acun, investigador da Fundação SETA.

A tensão entre o bloco anglo-saxónico e a Rússia, e a procura da Turquia por equilíbrio

Depois do envenenamento com gás tóxico, em Inglaterra, do ex-agente russo Serguei Skripal e da sua filha Yulia, surgiu uma grande tensão entre os Estados Unidos e a Grã-Bretanha – classificados como o bloco anglo-saxónico – contra a Rússia. Mas esta tensão com a Rússia estendeu-se também à generalidade dos países ocidentais. Os países que estão sob a influência do Reino Unido, alegam que a Rússia é responsável por este ataque em solo britânico, e mostraram a sua reação expulsando diplomatas russos.

No âmbito da reação coletiva contra a Rússia, 25 países, incluindo os Estados Unidos, o Canadá, a Austrália, a Nova Zelândia e os países da União Europeia, expulsaram no total 140 diplomatas russos.

Por seu lado, o ministério russo dos Negócios Estrangeiros – que recusa todas as acusações de envolvimento russo no caso Skripal – acusou os serviços secretos britânicos e as suas forças especiais, de estarem por trás do ataque contra Skripal.

No plano internacional, a NATO seguiu uma política que tem a Rússia como alvo direto. Já a Turquia, um país membro da NATO, condenou o ataque contra Skripal, mas não acusou diretamente a Rússia nem expulsou os seus diplomatas, como fizeram outros países.

Apesar da tensão entre a Rússia e os países ocidentais, por causa do caso Skripal, nos fazer lembrar o período da “guerra fria”, não se deve falar de guerra fria na atual conjuntura mundial. Pensar que a Rússia deseja criar uma frente contra o bloco ocidental, ao criar o seu próprio bloco com os países seus aliados, não é uma análise racional.

A anexação da Crimeia pela Rússia, a tensão nas relações entre a Rússia e o Ocidente por causa da crise na Ucrânia, e as sanções económicas impostas à Rússia que já atingem uma dimensão de guerra económica, criaram uma tensão extrema entre os dois lados. Este último incidente, o caso Skripal, pode ser visto como a gota de água que fez transbordar o copo. No entanto, devemos também ter em consideração as tensões internas que dividem o Ocidente, e que impelem alguns países ocidentais – desde logo com a Alemanha à cabeça – a adotar uma política mais moderada em relação à Rússia.

Enquanto perdurar a tensão entre a Rússia e o Ocidente, a Turquia irá adotar uma política externa equilibrada. Ao não tomar o partido de nenhuma das partes, a Turquia adota uma abordagem que protege os seus interesses nacionais.

Em relação ao caso Skripal, a Turquia está solidária com os seus aliados ocidentais no seio da NATO, mas impede que surjam tensões diplomáticas com a Rússia ao não expulsar qualquer diplomata russo. Sempre protegendo os seus interesses nacionais, a Turquia realizou a cerimónia de colocação da primeira pedra da central nuclear de Akkuyu, com a participação do presidente da República da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, lado a lado com o chefe de estado russo Vladimir Putin.

A central nuclear de Akkuyu será composta por 4 reatores nucleares, sendo que o primeiro desses reatores deverá entrar em atividade em 2 023. A central nuclear de Akkuyu irá produzir um total de 4 800 megawatts de eletricidade, o que garantirá a produção de 10% das necessidades totais de energia elétrica da Turquia.

Outro projeto de parceria turco-russa é o gasoduto Turkish Stream, cuja construção está a ser feita em cooperação com a Rússia. O projeto Turkish Stream vai na sua primeira etapa ligar a Rússia à Turquia, e numa segunda etapa irá estender-se desde a Turquia até aos Balcãs. Juntamente com os outros projetos realizados pela Turquia, o projeto Turkish Stream representa um passo importante da Turquia, no sentido do objetivo de se tornar num centro de energia na região.

No entanto, a Turquia não coopera apenas com a Rússia, e deseja igualmente reforçar a sua cooperação com os países membros da União Europeia e com os Estados Unidos. Adicionalmente, a Turquia assinou também um acordo com a Rússia, para a compra do sistema de defesa antimísseis S-400. Ao mesmo tempo, a Turquia continua também as negociações para comprar sistemas de defesa antimísseis a países seus aliados na NATO. Tudo isto, em paralelo com o acordo preliminar assinado entre a Turquia, a França e a Itália, para a produção conjunta de um sistema de defesa antimísseis. A Turquia tem também um papel ativo na produção dos caças F-35.

Mas apesar de todas estas atividades conjuntas, continua a tensão entre a Turquia e os seus aliados da NATO, em relação às organizações terroristas FETO e PKK/YPG. Ao mesmo tempo, a Turquia vive ainda problemas com a Rússia, em relação à questão da Crimeia e à situação em Guta Oriental. E por isso, tenta maximizar os seus interesses nacionais seguindo uma política de equilíbrio.

Esta foi a análise sobre este assunto de Can Acun, investigador da Fundação de Estudos Políticos, Económicos e Sociais – SETA



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