Çanakkale é impassável, a humanidade não caíra

A análise do Prof. Dr. Kudret Bulbul, decano da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Yildirim Beyazit em Ancara.

Çanakkale é impassável, a humanidade não caíra

A história dos países é marcada por acontecimentos muitos importantes que traçam o seu destino. Alguns destes acontecimentos podem também mudar a história mundial. A Batalha de Dardanelos - cujo 103º aniversário agora celebramos – foi uma guerra que mudou o curso da história.

Entre os objetivos desta guerra estavam a ocupação de Istambul, a extinção do império otomano e o envio de ajuda à Rússia czarista por via marítima. Para atingir estes objetivos, as forças da Entente – compostas pela Inglaterra, França, Austrália, Canadá, Nova Zelândia e Índia – enviaram centenas de milhares de soldados para Çanakkale. Eles atacaram mobilizando todos os seus meios para atravessarem o mar. Depois do fracasso, tentaram vencer as defesas desembarcando em terra. Mas foram confrontados pelo exército otomano, que com toda a sua força defendeu a pátria, apesar das suas limitações técnicas.

A guerra começou em fevereiro de 1 915 e terminou no final do mês de dezembro do mesmo ano, tendo feito centenas de milhares de mortos, feridos, desaparecidos e prisioneiros. Foi provavelmente um dos maiores sofrimentos da história. Os jovens soldados foram arrastados para esta guerra, depois dos seus antepassados terem caído mártires nas guerras anteriores. E é também por isso que esta guerra é conhecida como “a guerra dos soldados de 15 anos”. Há até uma canção sobre este tema.

Jovens de vários liceus turcos participaram na guerra. Os liceus de Galatasaray, Izmir e Konya, abertos durante o reinado do sultão Abdulhamit, não emitiram nenhum diploma nesse ano, pois todos os finalistas foram para a guerra.

Akif descreve desta forma a guerra e os nossos heróis no poema “Os mártires de Çanakkale”:

“O velho mundo, o novo mundo, toda a humanidade,

A areia ferve tanto, há um dilúvio, é o apocalipse.

As sete nações do mundo estão à tua frente,

A Austrália costa a costa com o Canadá!

As caras são diferentes, as línguas e as peles de diferentes cores,

Só uma coisa é evidente: é igual a sua atrocidade.

(…)

Oh soldado que tombou mártir por estas terras!

Ele merecia que os seus antepassados descessem dos céus para beijarem a sua testa pura.

Tu és tão grande, o teu sangue salvou o Tawhid…

Só os Leões de Bedir foram tão gloriosos”

O exército otomano perdeu 250 mil homens nesta guerra, apesar da inexistência de registos oficiais. Estes mártires foram no geral homens cultos, estudantes de liceu, das madraças ou de universidades. A perda de tantas pessoas educadas, trouxe graves problemas a seguir.

Os mártires do exército otomano eram oriundos de vários países, que na altura faziam parte do império otomano. Havia também voluntários oriundos de províncias que fazem parte do atual território turco, mas também de países dos Balcãs, do Médio Oriente e do Cáucaso.

Gostaria de partilhar consigo a história de Ilyas do Kosovo. Muitos homens da sua aldeia participaram na Batalha de Dardanelos. Todos caíram mártires, exceto 3 soldados. De regresso à aldeia, os soldados esperavam uma reação dos seus vizinhos, pois havia pais chorosos por terem perdido os seus camaradas de armas, caídos mártires. As suas mulheres, filhos e família esperavam-nos impacientemente. Eles não queriam defraudar as suas esperanças, chegando juntos à aldeia. Eles não queriam ser recebidos com impotência, sofrimento e pela melancolia destas pessoas. Decidiram por isso chegar à aldeia em intervalos.

Depois do primeiro veterano chegar à aldeia, todos os habitantes lhe perguntaram onde estavam os outros soldados. Ele disse que eles viriam. Uma semana mais tarde, chegou outro soldado à aldeia e deu a mesma resposta aos que esperavam com impaciência. O último veterano fez a mesma coisa, para preparar os aldeãos para a triste e dura realidade.

A Batalha de Dardanelos foi no fundo uma resistência das nações oprimidas contra o imperialismo, na frente do império otomano. Apesar da sua superioridade tecnológica, todas as nações oprimidas da nossa região rejeitaram juntas o conjunto do imperialismo. Os muçulmanos da Ásia meridional, como a Índia e o Paquistão, também deram o seu apoio à Batalha de Dardanelos depois da guerra de independência turca. Neste contexto, a epopeia de Çanakkale é um símbolo de esperança para a humanidade.

Também hoje, um eixo do mal leva a cabo um movimento semelhante de ocupação noutras regiões do mundo. Çanakkale é a lição mais recente, mais dura e mais impactante, que nos diz que os imperialistas não atingirão o seu objetivo, se as nações oprimidas atuarem juntas e resistirem juntas, a todos os movimentos de ocupação. Isto significa que a política de “dividir para reinar” pode ser facilmente contrariada através da unidade.

É obviamente estimável a oposição a todos os ataques imperialistas. Mas o discurso e os métodos também são importantes. Infelizmente, observamos atualmente um discurso de ódio e ostracismo como oposição aos ataques imperialistas. É difícil que estas pessoas não sintam ódio pelos ocupantes e que se abstenham deste discurso. Desta perspetiva, a Batalha de Dardanelos e os acontecimentos que se seguiram servem de guia.

Países como a Austrália e a Nova Zelândia não têm muitas guerras no seu passado, e por isso deram passos para a criação de uma nação durante a Batalha de Dardanelos. Mas nós somos uma nação sem ostracismo e que não produziu ostracismo em nenhuma guerra, nenhuma vitória e nenhuma derrota na sua história. Somos uma das poucas nações que se tornou uma nação sem precisar de se ostracizar. Isto também é válido para Çanakkale, apesar dos nossos 250 mil mártires, das nossas perdas e sofrimento. Nós não criámos ostracismo em Çanakkale. A perspetiva da nossa história e da nossa civilização, o nosso ponto de vista sobre este tipo de acontecimentos, fica bem resumido na frase de Ataturk sobre os Anzac: “Mães que enviaram os vossos filhos para a guerra em países longínquos, sequem as vossas lágrimas. Os vossos filhos estão nos nossos corações. Eles estão serenos e repousarão em paz. Depois de terem perdido a vida por estas terras, tornaram-se nossos filhos”.

Os discursos de ódio contra os ataques imperialistas e o ostracismo, só nos atrasarão e nos fecharão sobre nós próprios. Mas nós defenderemos os valores da nossa civilização contra este tipo de ataques e teremos fé em nome da humanidade. Mesmo que os ataques imperialistas atinjam o seu objetivo a curto prazo, a humanidade não caíra e a crueldade não durará, se adotarmos uma abordagem que não ostraciza e que não se fecha sobre si própria. Os esforços coloniais, baseados nos seus interesses e que validam todas as ocupações e explorações, mais cedo ou mais tarde vão perder.

Esta foi a análise sobre este tema do Prof. Dr. Kudret Bulbul, decano da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Yildirim Beyazit em Ancara



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