A Posição da Liga Árabe em relação à Síria

A Perspetiva da Turquia sobre o Médio Oriente. A Análise do Professor Associado Ismail Numan Telci, publicada pela Agência Anatólia.

A Posição da Liga Árabe em relação à Síria

No período após a II Guerra Mundial, as organizações internacionais começaram a tornar-se atores importantes na política mundial. Os países árabes criaram a Liga Árabe em 1 945, para fazer face aos problemas conjuntos que enfrentavam. Mas a organização perdeu a sua reputação perante a opinião pública árabe, principalmente porque falhou em muitas áreas nos últimos anos.

O falhanço da Liga Árabe em encontrar soluções para os problemas da região, bem como a sua incapacidade para desenvolver a cooperação política, económica e cultural no Médio Oriente, levanta questões acerca da razão de existir desta organização.

A Liga Árabe não foi capaz de criar uma estrutura que reunisse os países árabes debaixo de um só telhado, em particular contra a política de ocupação seguida por Israel na Palestina, nem conseguiu encorajar os estados árabes a fazer frente a Telavive. Também se manteve em silêncio perante o aprofundar da crise entre os países do Golfo Pérsico, que começou em 2 017. Outra questão em que a Liga Árabe tem dificuldades em encontrar soluções, é a atual guerra civil na Síria. A Liga Árabe tem desempenhado um papel de mero espetador, enquanto centenas de milhares de pessoas perderam as suas vidas e milhões foram forçados a migrar para outros países. A Liga Árabe transformou-se por isso numa organização disfuncional.

A posição da Liga Árabe em relação à Síria, foi alvo da atenção dos media internacionais e tornou-se recentemente numa questão de debate diplomático. O secretário geral da Liga Árabe criticou a operação da Turquia em Afrin, durante a Conferência de Segurança de Munique. Ele adotou um discurso pan-arábico, ao salientar que “Ancara está a intervir num país árabe”. Mevlut Çavusoglu, o ministro turco dos Negócios Estrangeiros, participou no mesmo painel como orador e deu uma dura resposta às afirmações do diplomata egípcio Ahmed Aboul Gheit, ao dizer que num contexto em que a Liga Árabe foi indiferente às políticas do regime sírio, o facto de tentar criticar a Turquia é injustificável. Çavusoglu salientou que a organização foi incapaz de impedir o líder de um dos seus estados membros de usar armas químicas, e de matar meio milhão de pessoas. Acrescentou ainda que “As críticas da Liga em relação à Turquia são inaceitáveis, já que não se opõe aos EUA e outros países ocidentais que também realizam operações militares e ataques na Síria”. Uma análise da Liga Árabe enquanto história de fracassos, torna mais claras as críticas de Mevlut Çavuglu.

O Egito, o Iraque, a Síria, o Líbano, a Arábia Saudita e a Jordânia, juntaram-se com o objetivo de aumentar a cooperação entre países árabes e para lutarem juntos contra as ameaças regionais, quando criaram a Liga Árabe em 1 945. A Liga aceitou novos membros com o passar dos anos, e tornou-se numa organização regional com 22 membros. Apesar da Liga ter oferecido cooperação limitada ao nível económico e cultural, não foi capaz de atingir os objetivos políticos definidos aquando da sua criação. A indicação mais óbvia disto mesmo é o falhanço da Liga Árabe em encontrar uma solução para o conflito israelo-palestiniano.

Tendo feito declarações contra as políticas de Israel desde a sua criação e tendo tomado decisões sem poder sancionatório, a Liga Árabe teve dificuldade em desenvolver uma política dissuasora comum, devido aos diferentes interesses e objetivos dos seus membros. Esta situação pode ser claramente vista no movimento de boicote lançado contra Israel em 1 948. A decisão da Liga Árabe de boicotar Israel foi ignorada por muitos dos seus estados membros ao longo do tempo. O Egito e a Jordânia assinaram tratados de paz com Israel em 1 979 e 1 994, e puseram fim aos seus boicotes depois destes acordos. A administração palestina da Cisjordânia pôs fim ao boicote em 1 993, na sequência do acordo que assinou com Israel. Com a decisão tomada em 1 996, os países membros do Conselho de Cooperação do Golfo terminaram formalmente o seu boicote, relativamente ao qual só tinham aderido de forma limitada com o argumento de que o boicote a Israel era um obstáculo à paz na região.

A dimensão do fracasso da Liga Árabe para a solução de problemas e tomada de ações comuns, pôde ser melhor observado durante a Primavera Árabe que começou em 2 010. A Liga foi incapaz de criar soluções pacíficas para as  guerras civis na Síria e no Iémen.

A Liga Árabe, que tem por objetivo aumentar a cooperação entre os países da região, parece ter-se afastado deste objetivo nesta altura. Outro exemplo desta situação são os acontecimentos relativos à Crise do Golfo, que começou em Junho do ano passado. O Egito, o país mais poderoso da Liga, juntou-se às sanções políticas e económicas contra o Qatar que foram impostas pela Arábia Saudita, pelos Emirados Árabes Unidos e pelo Bahrein. A Liga Árabe, que tem como objetivo aumentar a cooperação política, económica, cultural e social entre os seus estados membros, permaneceu em silêncio face às sanções contra o Qatar em todas estas áreas.

Em resultado de tudo isto, é importante notar que a Liga Árabe é uma organização disfuncional e antiquada na conjuntura política atual. A legitimidade de uma coligação cujos membros são na sua maioria governos autoritários, está a ser seriamente posta em causa numa altura em que a democratização se espalha em todo o mundo.

Esta situação tornou-se mais aparente com um desenvolvimento ocorrido em 2 016. Quando Marrocos se afastou da sua decisão de servir de anfitrião da 27ª Cimeira Anual da Liga Árabe, com a justificação de haver “divergências entre os países membros”, chocou os governos da região. As declarações feitas pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros de Marrocos sobre esta questão, salientaram que “os líderes árabes têm de enfrentar as divergências e divisões entre si”. Disse também que “esta cimeira será apenas mais uma ocasião para aprovar resoluções ordinárias e para fazer discursos que dão uma falsa impressão de unidade”. A cimeira deveria ter tido lugar em Março, mas só aconteceu em Julho depois da Mauritânia ter concordado em organiza-la.

Quando analisada à luz destes desenvolvimentos, a reação de Ahmed Aboul Gheit - o secretário geral da Liga Árabe – em relação às operações da Turquia em Afrin, devem ser vistas como uma atitude pessoal e não como a posição da Liga. Os antigos atores do regime do Egito que agora se aliaram ao regime de Sissi, estão sempre a fazer esforços para criticar a Turquia, por causa da posição firme de Ancara contra o golpe militar de 2 013. Esta situação deve ser considerada como a principal razão por detrás do comentários de Aboul Gheit em relação à operação de Afrin.

Esta foi opinião sobre este assunto do Professor Associado Ismail Numan Telci, publicada pela Agência Anatólia.



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