Guta Oriental: um paraíso transformado em inferno

A Perspetiva da Turquia sobre o Médio Oriente, 9º capítulo, foi um programa escrito pelo Prof. Dr. Cengiz Tomar - membro do corpo docente da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Marmara – para a Agência Anadolu.

Guta Oriental: um paraíso transformado em inferno

O regime de Assad continua os seus ataques impiedosos contra a região de Guta, o mais belo subúrbio de Damasco, também conhecido como “Paraíso na Terra” nos livros árabes de geografia. Como poderão os habitantes de Guta, Alepo e Idlib, e os sírios em geral, viver lado a lado com os seus assassinos? De acordo com as informações no momento da escrita deste programa, registaram-se 250 vítimas mortais e mais de 800 feridos nos últimos 3 dias, em resultado das centenas de ataques aéreos contra Guta Oriental. Este número poderá infelizmente ainda subir. Isto está a acontecer à frente dos olhos do mundo e apesar do Acordo de Astana sobre Guta Oriental, que ali definiu uma zona de arrefecimento do conflito sob a supervisão da Rússia.

Em relação à operação da Turquia em Afrin, aqueles que incendeiam o mundo com calúnias dizendo que “os civis foram atingidos”, estão a fazer-se de despercebidos, cegos, surdos e mudos em relação à Rússia, ao regime sírio e aos Estados Unidos. Tal como aconteceu antes na Bósnia e no Iraque, a morte das crianças não tem qualquer valor quando se trata de muçulmanos.

O secretário-geral da ONU, que está desamparado e é incapaz, disse que “eles estão a viver o inferno na terra”, referindo-se às pessoas cercadas e sob bombardeamento na região, não se apercebendo que a expressão “Paraíso na Terra” - referida nos livros de geografia - servia para designar Guta Oriental.

As pessoas cercadas em Guta, dizem agora estar à espera da morte. Isto porque se sobreviverem aos ataques do regime, irão morrer de fome e doença durante o cerco. O regime está a bombardear os hospitais em particular, tal como fez antes em Alepo e Idlib. Tal como Raqqa, que foi a capital durante o período de Harun Rashed – o sábio califa abássida a quem foi dedicada a história das Mil e uma noites – que foi destruída pelos Estados Unidos.

A zona designada por Guta, com planícies que rodeiam a capital Síria de Damasco a leste, oeste e a sul, foi famosa pelos seus vales verdejantes ao longo da história. Guta alimentava Damasco e é conhecida por ser uma das regiões mais férteis para a agricultura. Os antigos geógrafos árabes descrevem esta região como sendo um dos lugares mais maravilhosos do mundo, famoso pelos seus rios, árvores de fruto e jardins, decorados com as casas dos poderosos e de onde saíam os bens para Damasco. Guta tem livros escritos em sua honra e é hoje em dia uma zona mais urbanizada. Mas ainda continuava a ser uma zona de piqueniques para os habitantes de Damasco, na primavera antes da guerra. O Rio Barada, que divide Damasco em dois, bem como os seus afluentes, passam por Guta. Pensa-se que a população de Guta Oriental seja de 400 mil pessoas, quando era de apenas 50 mil durante o último período do império otomano. No momento atual, as estimativas apontam para 300 mil pessoas ainda a viver lá, pelo que um quarto da população terá abandonado a região por causa da guerra.

Guta, onde existem túmulos de muitos companheiros bem como artefactos arqueológicos de importância considerável, era o local favorito de Saladin Eyyubi, o conquistador de Jerusalém.

Guta Oriental foi um dos principais centros da resistência contra o regime em 2 011, e é estrategicamente importante para Damasco devido à sua proximidade para a capital, que foi tomada sob o controlo das forças de Assad em abril de 2 013. O regime, que atacou constantemente Guta Oriental com tiros de artilharia e ataques aéreos, também restringiu a entrada de comida e ajuda humanitária na zona. Existem dois grupos da oposição em Guta Oriental, que por vezes entram em conflito. A Feylaku’r Rahman (Aliança de Rahman) está ligada ao Exército Livre Sírio. Abdunnasir Shamir, que deixou o exército sírio quando era capitão nesta região, é agora o comandante da Aliança de Rahman. A arma mais avançada que têm nas mãos é a BGM-71 TOW de fabrico americano, capaz de destruir blindados.

O outro grupo em Guta Oriental é o Ceysu´l-Islam, ou o Exército Islâmico, o maior grupo de resistência em Guta Oriental. Este grupo não está ligado ao Exército Livre Sírio e pertence ao el-Cebhetu’l Islamiyye, apoiado pela Arábia Saudita. O grupo dispõe de vários tipos de mísseis. Os ataques com mísseis contra Damasco, lançados a partir das regiões controladas pelo Exército Islâmico, fazem com que o regime bombardeie de forma intensa Guta Oriental.

A região cercada só tem duas ligações com o mundo exterior. Uma é o ponto de controlo de Vafidin em Duma. Há forças do regime de um dos lados deste ponto de controlo e do Exército Islâmico do outro. E tal como acontece entre Gaza e o Egito, existem túneis subterrâneos que se estendem até outros subúrbios de Damasco. No entanto, recentemente estes túneis foram fechados pelo regime.

Desde setembro de 2 017, as agências de ajuda humanitária da ONU foram severamente restringidas no seu acesso à região. No entanto, houve um alívio parcial da situação quando estas entidades foram autorizadas a entrar na zona, uma vez em novembro e novamente em dezembro. Em Guta Oriental, onde os preços sobem muito mais do que em Damasco, as pessoas comem apenas uma refeição por dia. Nesta região, onde 300 mil pessoas precisam de ajuda alimentar, o pão e o arroz – que são dois dos alimentos básicos em particular – deixaram de existir. A mortalidade infantil devido à subnutrição é muito elevada. Os doentes continuam a morrer porque não podem ser transferidos para fora da zona.

Guta Oriental está desde há muito tempo a ser alvejada com bombas de barril e de desfragmentação, para além de armas químicas. Nos últimos dias, foram atingidos 6 hospitais registados pela ONU na região. Devido ao longo cerco, os medicamentos e a comida deixaram de estar disponíveis. O regime de Assad, com o longo cerco à região, está a usar uma técnica totalmente medieval e a oferecer apenas duas opções: ou se rendem os grupos na zona, ou serão mortas todas as pessoas com os bombardeamentos, a fome e as doenças. E tudo isto acontece em frente dos olhos da comunidade internacional moderna e civilizada.

Esta foi a opinião sobre este assunto para a Agência Anadolu do Prof. Dr. Cengiz Tomar, membro do corpo docente da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Marmara



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