A posição da Rússia antes e depois da operação do exército turco em Afrin

A análise do Prof. Dr. Salih Yilmaz, presidente do Instituto de Pesquisas sobre a Rússia e membro do corpo docente da Universidade Yildirim Beyazit em Ancara.

A posição da Rússia antes e depois da operação do exército turco em Afrin

A posição da Rússia antes e depois da operação do exército turco em Afrin, é frequentemente analisada nas notícias. O chefe da diplomacia russa, Serguey Lavrov, desmentiu a declaração feita pelos Estados Unidos segundo a qual os soldados russos se tinham retirado da região. A questão surgiu depois do Estado Maior da Rússia ter anunciado a retirada dos soldados russos das zonas seguras.

A operação da Turquia em Afrin foi um desenvolvimento esperado pela Rússia, pois os presidentes Putin e Erdogan discutiram a questão de Afrin em todos os seus encontros. Apesar da Rússia ter tido no início algumas reservas em relação à operação em Afrin, depois de ver as políticas do PYD nos últimos tempos, optou por não entrar em crise com a Turquia por causa desta organização terrorista. Um dia antes da operação, a Rússia colocou os seus soldados em pontos de passagem na região de Tall Rifat.

A Rússia perdeu a esperança em relação ao PYD

Foram emitidas fortes declarações por parte dos supostos militares do PYD, depois do começo da operação em Afrin. Destas declarações, ficou a saber-se que a Rússia mediou as discussões entre o PYD e Assad. Adicionalmente, o suposto comandante do YPG, Sipan Hamo, afirmou que já não era necessária a mediação da Rússia nas suas reuniões com Assad.

As políticas e o apoio dos Estados Unidos, fizeram do PYD uma organização dependente desse país. Com as armas e o apoio recebido pelo PYD, o grupo pensou que poderia lutar simultaneamente contra Assad e contra a Rússia. Durante as reuniões que tiveram lugar em Qamisli, a Rússia percebeu que as exigências feitas pelo PYD sobre a independência de um suposto “exército nacional”, eram na verdade exigências dos Estados Unidos.

Enquanto decorriam os trabalhos de preparação para o Congresso de Diálogo Nacional da Síria, a Rússia ficou incomodada pela pressão do PYD sobre os outros grupos curdos. O PYD ameaçou os líderes das tribos curdas convidadas pela Rússia, para as impedir de participar no congresso. As tentativas do PYD com vista a sabotar o Congresso de Diálogo Nacional, foram literalmente a gota que fez transbordar o copo.

O facto de nos últimos tempos o PYD ter levado a cabo uma política com os Estados Unidos, que não tem em consideração as administrações russa e síria, fez com que a Rússia tivesse mudado a sua política em relação ao PYD. Por exemplo, as fações que atacaram Assad e a Rússia nas regiões de Raqqa e Deir Ez Zor, tinham ligações com o PYD. O PYD opôs-se à perspetiva da Rússia, segundo o qual depois da libertação de Raqqa do DAESH, a região de Raqqa deveria passar a estar sob o controlo de Assad ou das tribos árabes. Dito por outras palavras, as ações do PYD nos últimos 6 meses foram contrárias aos interesses da Rússia. Do ponto de vista da Rússia, o PYD deve ser punido.

O facto dos Estados Unidos terem encorajado abertamente as ideias separatistas entre os curdos, teve um papel importante na decisão da Rússia de olhar para o PYD como um alvo. Com a sua declaração dizendo “seja pelo facto dos Estados Unidos não perceberem a situação, seja porque os seus atos são uma provocação aberta”, Lavrov colocou o foco sobre a colaboração entre o PYD e os Estados Unidos.

Afrin foi um ponto de rutura nas relações entre a Turquia e a Rússia

A Rússia teve boas relações com o PYD durante a intervenção na Síria em 2 015. Os soldados russos foram colocados na região de Afrin com a designação de “peritos observadores”. Sabemos a partir da imprensa que o exército russo e que elementos do PYD agiram conjuntamente na luta contra o DAESH em Manbij. Existem atualmente pontos de controlo russos na região de Manbij. Adicionalmente, pensamos que os peritos militares russos estão em missão na região de Qamisli. De cada vez que a operação em Afrin se tornava notícia na Turquia, a Rússia tentava impedi-la. Esta situação representou um ponto de rutura entre os dois países. Mas finalmente a operação da Turquia em Afrin, de certa forma, libertou a Rússia de um certo peso.

A forte cooperação entre a Turquia e a Rússia em relação à Síria, bem como a cooperação militar e energética – nomeadamente ao nível do Turkish Stream – foram fatores importantes que fizeram com que a Rússia não alinhasse ao lado do PYD. As declarações feitas pela Turquia, mostraram que estava errada a perceção segundo a qual a Turquia e a Rússia chegariam a acordo sobre uma mudança em Afrin e em Idlib.

Poderá a operação de Afrin ter tido influência em Sochi?

Alguns disseram repetidamente que a operação Ramo de Oliveira da Turquia em Afrin, poderia afetar o Congresso de Diálogo Nacional da Síria, que teve lugar em Sochi. Mas na realidade, vemos que certas forças da oposição que não queriam participar no congresso, mudaram o seu ponto de vista sobre este assunto, e quiseram estar presentes em Sochi depois da operação em Afrin. A única diferença é que o PYD ameaçou as tribos curdas que queriam participar no congresso. O objetivo era que o congresso tivesse lugar sem a presença de representantes curdos. Os trabalhos para elaborar uma nova constituição começaram durante o Congresso de Diálogo Nacional, que não contou com a presença do PYD.

“Rejeitamos a conferência de Sochi e os seus resultados. Os russos devem reavaliar a sua posição” – tinham afirmado as Forças Democráticas Sírias (FDS), controladas pelo PYD/YPG – depois do começo da operação em Afrin. Antes da operação em Afrin e durante as suas reuniões, a Rússia tentou incluir o PYD entre os participantes no congresso. No entanto, desde o começo da operação, o PYD deixou de ser convidado.

A Turquia e a Rússia levam a cabo uma política como um só estado

Como que podemos dizer que a Turquia e a Rússia começaram a agir como se de apenas um estado se tratasse em vários domínios. Apesar dos dois países terem muitas divergências relativamente à Síria, no fim de contas, Ancara e Moscovo acabam por se entender. A Rússia apoia a Turquia nos domínios da energia nuclear e da tecnologia militar. E a Turquia apoia a Rússia na questão do Turkish Stream.

A cooperação entre os Estados Maiores dos dois exércitos, permitiu resolver numerosas questões. Vemos que o chefe do estado maior russo Gerasimov, é altamente influente na definição das políticas em relação à Turquia.

Devemos lembrar que a operação Ramo de Oliveira foi executada em total colaboração com a Rússia. O ponto que une a Rússia e a Turquia na questão da Síria, é a sua convergência de pontos de vista em relação à integridade territorial da Síria.



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