A Perspetiva de Istambul

Haverá alguma tradição que tolere as criaturas mais do que o seu criador, seja qual for o seu idioma, a sua religião, raça ou cor?

A Perspetiva de Istambul

(transcrição do podcast)

Olá estimados ouvintes, oxalá possamos estar consigo todas as semanas nesta plataforma digital.

Escrever é uma viagem partilhada conjuntamente pelo escritor e pelo leitor. A amizade nesta viagem precisa de respeito, amor e confiança.

Escrever requer valentia e confiança em sim mesmo. Revelamo-nos a nós próprios enquanto escrevemos. Revelamos a nossas opiniões e ideias.

A escrita não é uma mensagem de sentido único, mas sim uma interação. É uma partilha recíproca que se alimenta do feedback dos leitores.

Escrever é descobrir. Escrever é uma abertura ao mundo e uma viagem interior pelo mundo dos leitores e pelas suas experiências ao longo de dezenas de anos. Escrever é uma aventura. Quando começamos a escrever, não sabemos até onde chegará o nosso texto. E depois de escrevermos, não sabemos o que vai acontecer nem quais os reflexos das nossas palavras.

Já a seguir, apresentamos a opinião sobre este tema do decano da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Yilidirim Beyazit em Ancara, o Professor Doutor Kudret Bulbul.

Nesta aventura passaremos juntos por muitos lugares e vamos focar-nos em muitos temas. Por vezes falaremos dos Balcãs, do Médio Oriente, África e da nossa região. Por vezes iremos dar a conhecer os gritos das zonas afetadas na Palestina, na Crimeia, Ahiska, Moro e Arakan. E por vezes seremos a voz de uma família de uma criança pobre na Europa. Por vezes seremos a voz de um imigrante que se isola no Ocidente, e por vezes seremos a voz de um jovem que tenta encontrar um caminho para não se perder a si mesmo. Seja qual for o seu idioma, religião, cor ou raça, chamamos a todo o mundo com consciência da Terra, que se preocupa pela humanidade, já que é muito preocupante o curso seguido pelo Ocidente.

Mas, em cada ocasião, tentaremos olhar para o mundo mais do que para a Turquia. Não abordaremos no nosso programa os problemas da Turquia, mas sim os problemas do mundo. Muitas vezes afastamo-nos dos desenvolvimentos globais, ao ficarmos enredados na agenda do país. Quando nos ocupamos sempre da agenda interna, podemos deixar de conseguir ver os desenvolvimentos no mundo e o valor dado pela humanidade pela geografia do coração. A nossa herança, requer que entendamos o que se passa no mundo e que reanimemos as esperanças.

E então, para onde iremos olhar neste contexto e de que perspetiva olhamos para o mundo?

Hoje em dia, enfrentamos 3 problemas básicos: a injustiça, a falta de partilha e a não convivência com culturas diferentes. Todos os problemas da humanidade podem ser agrupados com base nestes 3 problemas. Mas terá o mundo uma resposta para lidar com estes 3 problemas básicos? Haverá alguma tradição que tolere as criaturas mais do que o seu criador, seja qual for o seu idioma, a sua religião, raça ou cor? Se existir na humanidade uma tradição deste tipo, teremos que caminhar no sentido dessa tradição, que nos conduzirá à prosperidade em vez das ideias não aprovadas.

É provavelmente limitado o caminho que podemos fazer na civilização ocidental, em termos de justiça, partilha e pluralismo. A nossa civilização pode guiar-nos mais longe do que a tradição ocidental. A nossa marcha de Khorasan até aos Balcãs, é como um farol que irá iluminar o nosso caminho para resolvermos os problemas que enfrentamos.

Desta perspetiva, podemos dizer que Istambul foi um dos locais mais globais para a humanidade desde há 100 anos. Qualquer ideia, tendência, ideologia ou abordagem pode ganhar mais profundidade nos lugares onde convivem as diferenças, e não nos locais pequenos ou em zonas rurais onde as pessoas vivem sozinhas. Isto porque estas ideias têm o poder para se fortalecerem mais num ambiente de diferenças e contrastes. Neste contexto, Istambul foi uma cidade onde conviveram muitas ideias diferentes ao longo da nossa história recente, antes e depois do período constitucionalista, e em que as diferentes ideias se expressaram a si mesmas com facilidade. Istambul é um ambiente e uma oportunidade onde podem conviver todos os conteúdos dos elementos muçulmanos, como os turcos, árabes, curdos, albaneses e bósnios, e também os elementos não muçulmanos como os cristãos, os judeus e os arménios. Por isso, não será uma profecia fazer a previsão de que Istambul pode ter uma experiência em que se podem discutir em detalhe os atuais problemas com os elementos anteriormente indicados.

Como indicador de uma rutura na nossa civilização no século XX, os intelectuais turcos foram afetados pela civilização ocidental. Nos períodos mais recentes, os nossos intelectuais passaram a ser inspirados pelos movimentos de pensamento em países como o Egito, o Irão e o Paquistão. Sem dúvida, que seguir os desenvolvimentos no Ocidente e no Oriente, conhecer as diferentes ideias e avalia-las, constitui um ganho.

Mas não se pode dizer que os intelectuais turcos, que seguem os desenvolvimentos nesses países, podem analisar suficientemente Istambul e os seus problemas, onde conviveram amplamente as diferenças e onde se pode observar a profundidade de pensamento mais ampla. Infelizmente, o cobertor que foi colocado em cima do que se passou no período republicano e em Istambul, ainda não foi suficientemente levantado.

Nos dias de hoje, em quantos países podem as pessoas viver livremente com as suas identidades e não serem descriminadas, e em quantos países é que as pessoas se interessam pelo que se passa com as outras pessoas de outras geografias? Por isso, podemos dizer que Istambul é a experiência mais recente e mais adequada para resolver os problemas atuais. Esta experiência está ali como um farol por descobrir, e que poderá iluminar e trazer soluções para todos os problemas com os quais nos deparamos. Quem sabe, talvez a “civilização parada” mencionada pelo famoso historiador Arnold Joseph Toynbee seja a experiência de Istambul.

A cidade de Istambul, que tem a experiência do Ocidente e do Oriente a partir do período “não parado”, pode guiar-nos até esta solução para os problemas atuais. Mas no momento atual, estamos afastados desta experiência em grande escala. Precisamos de regressar novamente a ela e de caminhar nessa direção.

Seja qual for o seu idioma, religião, cor ou crença, se disserem que estão prontos para fazer esta caminhada global, então vamos caminhar juntos. O nosso caminho é longo, mas o nosso tempo é limitado…

Vamos Bismillah (em nome de Alá).



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